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Archive for the ‘Cinema’ Category

Como já estou atrasado nas famigeradas listas de fim de ano, vamos direto às minhas premiações de melhores filmes de 2010. Alguns aqui listados são de 2009, mas tiveram seu lançamento no Brasil em 2010 – é o caso de Direito de Amar, Lunar e Sede de Sangue. Outros são de festivais e/ou lançados diretos em DVD. Muitos eu já comentei aqui no blog, portanto, não vou escrever de novo. E para não parecer que sou injusto, decidi não comentar sobre nenhum mesmo – mentira, é a preguiça. Outra coisa, não tenho estômago para escolher que filme foi mais importante que outro – numa lista em que todos tiveram sua parcela de importância no ano – portanto, ela não está em ordem de preferência. Sem mais delongas, voilà.

 

Melhores Filmes de 2010

*Cópia Fiel, Abbas Kiarostami

*Direito de Amar, Tom Ford

*Ilha do Medo, Martin Scorsese

*Lunar, Duncan Jones

*A Origem, Christopher Nolan

*Scott Pilgrim, Edgar Wrigth

*Sede de Sangue, Chan-wook Park

*O Solteirão, Noah Baumbach

*Toy Story 3, Lee Unkrich

*Tropa de Elite 2, José Padilha

 

LunarSede de Sangue

Greenberg, O Solteirão

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“Filisteus são aqueles que não se interessam por livros ou filmes interessantes”. Dito assim, o adjetivo denota escárnio e vergonha daquele a qual é empregado. E mesmo com tal significação, Frank, um garoto de cerca de 10 anos, usa-o de modo a incitar orgulho. Vendo o casamento dos pais desfragmentarem perante seus olhos, o garoto toma pequenos atos para demonstrar sua rebeldia e incompreensão interna. E junto com os atos, toma partido de escolher um lado no confronto conjugal: opta por sua mãe, da qual tem mais afeição. Como se não bastasse somente tomar um lado, o garoto renega qualquer traço, seja ele físico ou psicológico, que tem em comum com o pai, um escritor intelectual. Daí vem seu niilismo inconsciente ao empregar a si o adjetivo de “filisteu”. Engraçado notar, também, que o garoto que confere a si a marca de “filisteu” e prefere jogar Tênis a qualquer outro oficio mais intelectual, tenha a profundidade sentimental mais bem explorada no filme. Esse é o modo de esnobar a “intelectualidade” do pai escritor.

O outro filho, Walt, de cerca de 17 anos, é o oposto do irmão. Além de seguir os caminhos do pai, ele se interessa por literatura, mesmo que superficialmente. Se perguntado sobre, ele argumenta com notas de seu progenitor – do mesmo modo que prefere sua opinião antes de ler um livro. No concurso de talentos da escola, Walt toca “Hey You”, do Pink Floyd, alegando ser dele a composição. Um sinal inegável de sua incapacidade artística, o que gera certo desconforto, em visto de que admira tanto o pai à ponto de almejar seu grau de talento. E essa fé cega apresentada para com o pai, faz com que ele se distancie de sua mãe, desse modo, se torna insensível para com suas dores.

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Quanto aos pais, já os acompanhamos desatando os nós do matrimônio quando somos introduzidos ao conflituoso jogo de Tênis. Nessa cena, também, temos um vislumbre do quão esnobe é o homem, e do quão frágil é sua mulher. Características, essas, que são confirmadas ao decorrer do filme. O primeiro, principalmente, quando o marido se surpreende por sua mulher manter um caso amoroso com o “professor de tênis filisteu”. O segundo, quando ela desfere um tapa contra o rosto de Walt, num sinal de que não consegue controlar as situações. E mesmo com todos esses adjetivos e personalidades fragmentadas, conseguimos engatar e sentir a dor do casal. Como bem disse a atriz Laura Linney – que interpreta Joan, a mulher: “ninguém é inocente, ao passo de que ninguém é culpado”. O escritor, Bernard, carrega uma culpa muda contra Joan, alegando que por ela, ele não pôde aproveitar os frutos que sua carreira – agora em decadência – lhe proporcionou no passado – e me refiro às mulheres. E Joan, alega que o marido não apresenta a mesma “energia” da qual ele dispunha.

Dentre esse conturbado cenário que sentimos a dor dos personagens – principalmente dos filhos. “A Lula e a Baleia”, escrito e dirigido por Noah Baumbach, é um retrato panorâmico dos casos familiares, apresentado para nós um requintes de humor e drama muito bem cotados. Creio não ser possível sair indiferente à cena final. A Lula e a Baleia. O embate dos gigantes no museu. Embate que deixa marcas e dores. Essas que, com certeza, são mais profundas nos filhos. Como o referenciado longa de Godard, “O Acossado”. O casal é auto destrutivo, porém, nesse caso, os que mais se machucam são os filhos.

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Resenha – Howl (2010)

Howl (2010 – 82min)

Direção: Rob Epstein e Jeffrey Friedman

Roteiro: Rob Epstein e Jeffrey Friedman

Elenco: James Franco, Jon Hamm, Mary-Louise Parker, Jeff Daniels, Todd Rontoni e Jon Prescott

Não consigo encontrar argumento plausível que explique a tentativa da indústria cinematográfica de insurgir o movimento beatnick nos dias de hoje. Nesse momento, Walter Salles está a se ocupar da adaptação de “On The Road” – obra mais expoente do movimento beat – para os cinemas. E, mesmo que ainda seja cedo, o projeto anda bastante criticado – devido, sumariamente, à presença da fraquíssima Kirsten Stewart, o que pode, também, ser lido como uma tentativa de aproximação do público mais teen. Não vou prever resultados, ater-me-ei à “Howl”, filme de Rob Epstein e Jeffrey Friedman que tem como base argumentativa a vida e a obra – de mesmo nome – de Allen Ginsberg. Adianto-lhes, porém, que se a tal “onda” seguir os parâmetros de qualidade de “Howl”, o resultado estará longe de ser maléfico.

O fato de o filme ser dirigido por dois até então documentaristas, explica o tom que o longa emprega. Mistura depoimentos de Ginsberg – interpretado por um brilhante James Franco – e cenas do verídico julgamento do Estado Americano contra a obra, acusando-a de ser “deveras obscena”. E ao passo que o personagem de Ginsberg explica a poesia metaforicamente e com todos os trejeitos possíveis de um poeta; no tribunal, a obra é dissecada tecnicamente. E esse embate de discursos – quase um embate entre poesia e prosa – dá certa flexibilidade no roteiro, podendo, assim, mesmo os que não conhecem a obra discutida, terem noção do que ela representa no plano geral.

O julgamento, aliás, torna-se tão ou mais importante que os relatos de Ginsberg à partir do momento em que se propõe à discutir a arte. Como a mesma é interpretada, sua função no meio social, o público do qual ela se dirige, o pudor e asco da sociedade americana perante algo que não compreende… As discussões que dali poderiam ser retiradas são várias.

A poesia de Ginsberg é algo quase sensorial, pouco palatável. Logo, transpor a mesma para a cinematografia seria algo difícil. E é aí que os recursos usados no longa se encaixam. As animações são perfeitas, em visto de que completam as palavras proferidas por James Franco em imagens e seqüências abstratas. Outro recurso é o já falado tom documental: ele serve de pretexto para que a vida de Ginsberg seja exposta.

Em meio a esse deleite visual – e de certo modo, literário – o que destoa é a falta de certa agressividade típica dos beatnicks. São todos belos atores em meio à belos cenários que ocorrem como eufemismos para a sujeira e podridão um tanto charmosa das noites nova-iorquinas regadas à jazz e drogas. Alerto, talvez, que isso seja apenas chatice de um alguém que perdeu horas na companhia indireta de Kerouac, Burroughs, Ferlinguetti e, Ginsberg. Não creio que ser problema para o público maior.

 

Nota: 9,0

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Terminei essa semana a leitura de “Lanterna Mágica”, autobiografia do diretor Ingmar Bergman. E como se já não bastassem os comentários apaixonados que teci no twitter durante as duas últimas semanas que estive em companhia do livro, vou, aqui, dar-lhes minhas impressões finais.

Após assistir três filmes do diretor – O Sétimo Selo, Morangos Silvestres e Juventude – tive a impressão da qual muitos falam: para se ter a plenitude na interpretação de seus filmes, deve-se compreender a vida de Bergman.

Lançada por uma acanhada editora no Brasil – a Editora Nórdica – a edição do livro que não contêm mais que 300 páginas é, mesmo com todos os erros, louvável. Louvável porque o idioma original é sueco, portanto, por dificuldades lingüísticas, a distância entre o leitor e o autor seria grande – pelo menor desleixo do tradutor. Salvo alguns erros de datilografia e notas de tradutor inconvenientes, a Editora Nórdica cumpre bem seu papel.

Robban_Andersson_XP_Scanpix_HR_100_70_ingmar_bergmPois bem. Escrito em 1989, já isolado na Ilha de Färo, o diretor relembra-sa de particularidades da juventude e de sua experiência como cineasta. No início da leitura já podemos observar um assunto que tanto perdura na filmografia do diretor: a morte. Relatando sua infância, Bergman é carinhoso ao lembrar de sua ama-de-leite que desapareceu – divulgando-nos depois, que a mesma suicidou-se após descobrir estar grávida. A morte do irmão é, com pesar, relatada – mesmo que numa breve passagem. Mas o falecimento que causa mais remorso no autor é o de sua mãe. Dedicando o último capítulo à mesma, é com melancolia que se lembra de sua submissão perante o marido agressivo. O que pode ser visto no longa-metragem intitulado “Karin’s Face”, por meio de fotografias pessoais de sua mãe.

A joi de vivre que, depois do casamento, deram lugar a passividade e melancolia.

E é também pelo pai, que Bergman retrata suas particularidades no livro. Os castigos e humilhações por este empregado, foram constantes e resultaram no que ele chama de “personalidade bergmaniana”. A frieza e falta de empatia para com seus parentais. O que causa remorso no filho pedante e, posteriormente, no pai ausente.

E em meio às relações amorosas turbulentas, uma paixão sucintamente detalhada pelo autor é o teatro. Suas passagens à vários teatros como diretor, seu perfeccionismo, atores preferidos… E Strindberg, romancista tão venerado pelo autor – e tão encenado em suas peças. E a tal “Lanterna Mágica”, também. Uma espécie de projetor que o garoto Bergman troca com o irmão por soldados de chumbo e que lhe proporcionam pequenas experiências cinematográficas importantes.

O caminho percorrido até se tornar diretor de cinema, a desilusão com a Hollywood americana, o processo do Estado da Suécia contra o diretor, o isolamento na ilha de Färo. Tudo dito sem pudores.

É indiscutível que vários diretores empregam vivências pessoais na concepção de seus filmes, mas Bergman foi o que mais fez uso de tal façanha. Os elementos oníricos que tanto vemos presentes em suas obras foram criados em base de experiências do diretor – como a cena inicial de “Morangos Silvestres”.

Por fim: a sinceridade com a qual o autor se abre no relato de sua vida faz com que “Lanterna Mágica” não seja apenas um livro para os interessados na carreira cinematográfica. São relatos humanizados – os mesmos que fazem de “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, uma obra venerada.

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“Caro mundo e todos nele: é difícil sorrir sempre quando não sabe-se o que as pessoas acham tão engraçado”.

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Harmony Korine, o diretor do filme em questão, é conhecido por ser conciso em seus projetos. Não se utiliza – até então, ao menos – de metáforas para exemplificar o que nos diz. É direto. Sem pudores. Em “Ken Park”, por exemplo, roteirizou cenas escatológicas como o garoto masturbando-se com a corda no pescoço. Porém, após passar nove anos longe dos holofotes cinematográficos, ele retorna com o que talvez seja a metáfora nos melhores moldes cinematográficos. A vemos em tudo: do título às mais sutis nuances. E se estou divagando – ao invés de resenhar – “Mister Lonely” é porque essa obra estendeu-se mesmo após sua duração.

Como dito, é por meio de metáforas que “Mister Lonely” aborda a solidão do personagem – um sósia de Michael Jackson. A excêntrica escolha do personagem é, no mínimo, genial. Afinal, que outro ser poderia expressar melhor a solidão como alguém que nem ao menos sabe quem é? Ele não trabalha como sósia, ele é o sósia. Vinte e quatro horas por dia. Dentro e fora de sua cabeça. E é justa essa prisão interior que o filme procura desconstruir durante sua projeção. O que poderia ser um extenso monólogo conflituoso sobre quem é o ser, é, na verdade, um delicioso longa de quase duas horas – que, além de um curioso e bem escrito roteiro, nos presenteia com belíssimas seqüências.

De uma Paris na qual não conhece ninguém – além de seu empresário -, o personagem vai, levado por uma proposta inesperada de uma Marilyn Monroe melancólica, para a Ilha dos Sósias. Antes de chegar, portanto, temos a impressão da magnitude solitária do personagem: esse se despede de seus móveis como se estes fossem seus fãs, seus seguidores, seus amigos. Pois já na Ilha, o que era para se tornar um paraíso, um subterfúgio para seus problemas, acaba por mostrar-lhe a face triste do palhaço. Um Charles Chaplin que é confundido com Hitler. Junto com essa decepção, vem a certeza de que sempre será um deslocado. Mesmo para si. Desse modo, é obrigação libertar-se de sua personalidade até então construída para tentar algo novo. Algo que seja ele.

Paralelamente a estória do sósia, temos o conto das freiras. Com uma participação especial: um padre interpretado por Werner Herzog – amigo e maior influenciador de Harmony Korine. Nesse conto, forma-se o paradoxo da questão de que não podemos zombar ou duvidar de algo que não conhecemos. E o que poderia, até então, ser interpretado como uma mensagem pró-Igreja(s) acaba tornando-se uma crítica à fé cega. Com muito humor-negro, claro – impagável a cena na qual o Padre nos questiona sobre a veracidade dos “milagres” enquanto fuma um cigarro fumarento.

Desde a belíssima abertura*, com um melancólico Michael Jackson correndo numa mini-motocicleta ao som de “Mister Lonely” de Bobby Vinton, já temos a certeza de tratar-se de um longa nada convencional. Como os milagres incompreendidos, os que zombam dos personagens são aqueles que não entendem. Porque para se ter idéia da projeção, é preciso deixar os pudores de lado e embarcar na viagem. Adotar certa empatia na visão. Desse modo, somos presenteados com belíssimas cenas que, com certeza, tocarão a todos que por ela deixarem-se levar.

 

*Cena de abertura do longa.

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Os Famosos e os Duendes da Morte (2010 – 101 min)

Direção: Esmir Filho

Roteiro: Esmir Filho e Ismael Canepelle, baseado no romance de mesmo nome e autor;

Elenco: Henrique Larré, Ismael Caneppele, Tuane Eggers, Samuel Reginatto, Áurea Baptista

Com o crescimento da nova onda de adolescentes alegres seguidores de Restart, vieram também aqueles com o repúdio a tal movimento. “Jovens vazios, sem a tal complexidade da adolescência”, dizem. E se os primeiros têm “Malhação”, como fonte de empatia e entretenimento, agora, os dito b-siders têm “Os Famosos e os Duendes da Morte”.

Fugindo dessa frívola discussão – mas afirmando o fato –, o filme de Esmir Filho traz consigo o poder de retrato de um lugar-comum para muitos adolescentes brasileiros. Interioranos, com seus castelos virtuais, amores platônicos e complexidades lynchnianas: são essas as características de tal camada social. A abundância de perguntas e a falta de respostas. Mr. Tambourine Man (Henrique Sarré), nosso personagem melancólico, descarrega em seu blog todas as suas angústicas: abre mão de uma realidade física para uma utopia tecnológica. Lá, ele é um blogueiro admirado por alguns – como podemos ver nas conversas de msn -, aqui, tem de lidar com a solidão de sua mãe que conversa com a cachorra.

Contudo, a trama não é um simples retrato de uma geração que cresce fora do plano físico: há uma estória maior, um mistério maior. Ao decorrer do longa, somos introduzidos à vídeos desconexos em que vemos a personagem Jingle Jangle: linda, misteriosa, e com requintes indie – não estou descrevendo uma deusa de nerds, juro. Há também um misterioso homem que persegue e admira de longe Mr. Tambourine e seu amigo. Porém é no desenrolar de tal trama é que começam alguns pequenos erros.

O roteiro foi baseado no romance de mesmo nome de Ismael Canepelle, e adaptado pelo mesmo em parceria com o diretor Esmir Filho. E logo observamos: já fica claro nos trinta minutos do que se trata tal mistério outrora mencionado. E depois de descoberto, algumas seqüências se tornam desnecessárias. E são em tais seqüências que me deparo com algumas perturbações: inúteis, prejudicam a beleza da trama, como por exemplo, a masturbação do garoto no banheiro. Outras são por iguais desconexas, porém, belas – como a pintura do muro de branco, apagando os desenhos.

A atração maior fica por conta dos personagens construídos. Toda a complexidade da adolescência é retratada de forma soberba, e vivida com a mesma qualidade pelos atores. Para quem viveu em tal período, e passou por tais situações – acredito que todos que nasceram de 1990 em diante -, é difícil não sentir uma grande empatia. E é pelo mesmo motivo que talvez o filme não tenha alcançado proporções maiores. Sem entender os intransmissíveis dilemas, alguns podem tratar com escárnio certas situações.

Por fim, resta-me falar da fotografia soberba, da bela trilha sonora e da delicadeza enorme ao tratar-se do assunto. É uma prova da diversidade de culturas adolescentes para os que ainda os tratam como coloridos fãs acéfalos de Restart. Lamento não ter um lugar para uma possível ida ao Oscar. Mas espero que o filme sirva de pontapé para as produções brasileiras sem pré-conceitos e estilizações.

 

Nota: 8,0

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Greenberg (2010, 107 min) *Sem previsão de estréia no Brasil

Direção: Noah Baumbach

Roteiro: Noah Baumbach

Elenco: Ben Stiller, Jeniffer Jason Leigh, Rhys Ifans, Dave Franco, Juno Temple

 

Antes de aqui proferir minhas opiniões acerca do filme, devo avisá-lo, amigo leitor: este que vos fala é fã do diretor em questão. Portanto, por mais que eu tente mascarar meu gosto com uma falsa imparcialidade, estarei fadado a ter minhas opiniões questionadas devido à minhas preferências. Porém, não desqualifique tudo. O fato da minha preferência não me deixará cego, como exemplo, sou fã de Martin Scorsese, mas não consigo gostar de “Cabo do Medo”. Agora que lhe avisei, posso dar continuidade a esta resenha.

Greenberg, novo longa de Noah Baumbach, que assina o roteiro e dirige, conta a história de Roger Greenberg (Ben Stiller), um nova-yorkino que vai passar um tempo na casa de seu irmão em Los Angeles, enquanto este está viajando. Lá ele reencontra os velhos amigos e membros da sua ex-banda e vê que os tempos mudaram e eles não continuam necessariamente a serem os melhores amigos. Greenberg começa assim a partilhar o tempo livre com a assistente do seu irmão, Florence (Jeniffer Jason Leigh), aspirante a cantora e também uma errônea em se tratando de relacionamentos.

Baumbach tratou o relacionamento entre pais e filhos e suas conseqüências em “A Lula e a Baleia”, em Greenberg ele trata do processo de envelhecimento dos seus personagens. Roger Greenberg com seus 41 anos ainda vive no seu passado. Em Los Angeles, ele procura ex-companheiros de banda, sua ex-namorada e reata assuntos a muito deixados para trás. Misantropo, Roger mantém um semblante de homem difícil, mas no fundo, conseguimos captar todo o sentimentalismo nele presente. Enquanto na juventude, Roger fora um integrante de banda cortejado pelas garotas, e credor de que aquele status duraria para sempre, e ter de viver em sendo apenas um carpinteiro rejeitado por todos é algo perturbador para ele. Mantendo esse clima saudosista, o longa explora muito bem o lado desse personagem, e não só num âmbito pessoal – restrito à sua vida-, em certo momento da trama, Roger discute com os jovens presentes numa festa, indagando seus valores e diferenças para com sua época. Pode parecer que todo o argumento do filme é centralizado num personagem só, mas não é verdade. Florence também tem o seu quinhão na personalidade que o longa carrega. Certo momento da trama, Florence conta a história de quando fingiu ser uma garota fútil, escondendo seu real desejo de apenas se relacionar.

Com um roteiro muito bem escrito, Baumbach conta com o apoio do produtor musical e líder do LCD Soundsystem, James Murphy, na composição da trilha sonora. Que para manter o clima saudosista utiliza, além de composições de sua autoria, faixas de bandas oitentistas como Duran Duran. O elenco também está muito bem dirigido. O britânico Rhys Ifans interpreta o único ex-companheiro de banda que ainda mantém contato e uma amizade com Greenberg. Em certos momentos, captamos a frustração que este personagem tem ao não obter o sucesso tão sonhado em sua juventude. Ben Stiller nos mostra mais uma vez que também se dá muito bem com dramas – já havia comprovado tal afirmação em “Os Excêntricos Tenenbaums”, do amigo de Baumbach, Wes Anderson.

A tragicomédia mantém tênue a linha entre o riso e o choro. A comédia está presente, principalmente, nos momentos paranóicos e complexos de Greenberg. E o drama fica por conta desse clima nostálgico de um tempo que não volta, uma oportunidade única não tomada, esperança perdidas… E mesmo com algumas falhas e momentos tediosos, ao todo a obra se mostra vigorosa e dotada de um ótimo ritmo. O filme, junto com Mr. Nobody,é uma das grandes perdas para o público brasileiro que ainda não tem expectativas de vê-los nos cinemas do país.

 

Nota: 9,5

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