“Filisteus são aqueles que não se interessam por livros ou filmes interessantes”. Dito assim, o adjetivo denota escárnio e vergonha daquele a qual é empregado. E mesmo com tal significação, Frank, um garoto de cerca de 10 anos, usa-o de modo a incitar orgulho. Vendo o casamento dos pais desfragmentarem perante seus olhos, o garoto toma pequenos atos para demonstrar sua rebeldia e incompreensão interna. E junto com os atos, toma partido de escolher um lado no confronto conjugal: opta por sua mãe, da qual tem mais afeição. Como se não bastasse somente tomar um lado, o garoto renega qualquer traço, seja ele físico ou psicológico, que tem em comum com o pai, um escritor intelectual. Daí vem seu niilismo inconsciente ao empregar a si o adjetivo de “filisteu”. Engraçado notar, também, que o garoto que confere a si a marca de “filisteu” e prefere jogar Tênis a qualquer outro oficio mais intelectual, tenha a profundidade sentimental mais bem explorada no filme. Esse é o modo de esnobar a “intelectualidade” do pai escritor.
O outro filho, Walt, de cerca de 17 anos, é o oposto do irmão. Além de seguir os caminhos do pai, ele se interessa por literatura, mesmo que superficialmente. Se perguntado sobre, ele argumenta com notas de seu progenitor – do mesmo modo que prefere sua opinião antes de ler um livro. No concurso de talentos da escola, Walt toca “Hey You”, do Pink Floyd, alegando ser dele a composição. Um sinal inegável de sua incapacidade artística, o que gera certo desconforto, em visto de que admira tanto o pai à ponto de almejar seu grau de talento. E essa fé cega apresentada para com o pai, faz com que ele se distancie de sua mãe, desse modo, se torna insensível para com suas dores.
Quanto aos pais, já os acompanhamos desatando os nós do matrimônio quando somos introduzidos ao conflituoso jogo de Tênis. Nessa cena, também, temos um vislumbre do quão esnobe é o homem, e do quão frágil é sua mulher. Características, essas, que são confirmadas ao decorrer do filme. O primeiro, principalmente, quando o marido se surpreende por sua mulher manter um caso amoroso com o “professor de tênis filisteu”. O segundo, quando ela desfere um tapa contra o rosto de Walt, num sinal de que não consegue controlar as situações. E mesmo com todos esses adjetivos e personalidades fragmentadas, conseguimos engatar e sentir a dor do casal. Como bem disse a atriz Laura Linney – que interpreta Joan, a mulher: “ninguém é inocente, ao passo de que ninguém é culpado”. O escritor, Bernard, carrega uma culpa muda contra Joan, alegando que por ela, ele não pôde aproveitar os frutos que sua carreira – agora em decadência – lhe proporcionou no passado – e me refiro às mulheres. E Joan, alega que o marido não apresenta a mesma “energia” da qual ele dispunha.
Dentre esse conturbado cenário que sentimos a dor dos personagens – principalmente dos filhos. “A Lula e a Baleia”, escrito e dirigido por Noah Baumbach, é um retrato panorâmico dos casos familiares, apresentado para nós um requintes de humor e drama muito bem cotados. Creio não ser possível sair indiferente à cena final. A Lula e a Baleia. O embate dos gigantes no museu. Embate que deixa marcas e dores. Essas que, com certeza, são mais profundas nos filhos. Como o referenciado longa de Godard, “O Acossado”. O casal é auto destrutivo, porém, nesse caso, os que mais se machucam são os filhos.







